Search
pt-bren

SEGREDOS

No silêncio do seu quarto, pouco antes de dormir, ou olhando para fora da janela do trem, distraído ou consciente, guardamos apenas para nós mesmo alguns pensamentos, sentimentos, vontades. Segredos, por assim se dizer, que por algum motivo não dividimos com mais ninguém.

Uma prova que não passou e todos seus amigos conseguiram.
Um relacionamento que ainda lhe dói a separação.
Um trabalho que recebeu uma crítica negativa.
A opinião que alguém um dia lhe deu e você não consegue processar.
Uma experiência traumática que você sente vergonha de ter vivenciado.
Uma ideia que tem medo de dividir e se perder.
Algo que você gostaria de um dia fazer ou ser mas sabe que seria reprovado.
Um vício que você tem medo de ser julgado.

Seja qual for o seu segredo, você já parou parou para pensar qual o motivo que você guarda para si?

É o desejo de simplesmente não querer dividir com mais ninguém ou, existe um motivo mais profundo – e complexo – para conviver sozinho com esses pensamentos?

Há alguns meses tive a sorte de ler o livro “A coragem de ser imperfeito” da Brené Brown, que havia ganhado há mais de um ano mas nunca folheado. De uma forma bem simples ela me fez perceber diversos mecanismos que me levavam (e ainda levam) a guardar para mim muitos sentimentos.

Convivemos com outros ser humanos que, por mais que sejam nossos irmãos e tenham crescido dentro da nossa própria casa, experienciam a vida de forma diferente e isso nos torna seres únicos. Não à toa procuramos relacionamentos com pessoas que tenham mesmas afinidades e estilo de vida, capazes de nos fazermos sentir compreendidos. Entretanto, mesmo as pessoas mais semelhantes à nós ainda são diferentes e o medo de não sermos aceitos, compreendidos ou apoiados nos assusta. O medo de errar, de sentirmos vergonha, de nos expormos e não sermos correspondidos.

Alguns mais, outros menos, deixamos de sermos quem realmente somos regidos pela necessidade de nos mantermos em uma posição segura, sem muitos riscos de nos machucarmos. Vivemos em uma sociedade treinada para julgar e ridicularizar quem ousa fazer uma pergunta, se diferenciar, viver abertamente e grande parte de nós não está pronto para se jogar.

Crescemos acreditando que devemos guardar em segredo nossa paixãozinha de infância, porque se a pessoa que gostamos souber, ah, não será correspondido, irá nos ridicularizar, contar para todo mundo! Vivemos com vergonha de pedir para a professora que explique de novo, porque não queremos ser o único (afinal nos sentimos só) que não entendeu a matéria. Professores são acostumados e não ter paciência com quem precisa ouvir mais de uma vez, explicar de formas diferentes que façam sentido para pessoas mais visuais, por exemplo.

No final do dia, somos sós, deitamos em nossas camas e, mesmo que acompanhados, estamos a sós com nossos pensamentos nos últimos segundos antes de dormir. Quais são seus segredos e porque não os divide com ninguém? O que tem a perder, se expuser o que sente à procura de ajuda, um conselho? Esse segredo está te matando, aos poucos, ou é o que te mantém vivo?

Uma multidão de pessoas, submersas em seus segredos sentem-se sozinhas, juntas.

0.Comments

    Leave a Comment