Search

 

Tenho vivido um período de grandes mudanças, de escolhas e novos caminhos. Neste novo momento, novas pessoas tem cruzado o meu caminho, e nestas conversas e trocas cotidianas, sempre surge aquela pergunta –  de um lado ou de outro:

 

O que você faz?

 

E lá no fundo sempre me pergunto o que queremos realmente dizer com isso: Com o que trabalha? No que acredita? Por onde veio e para onde vai? O que faz no seu tempo livre? O que gosta de fazer? O que te inspira? O que te movimenta?

 

E no final acho que queremos saber tudo isso, junto e misturado.

 

Quem é você?

 

“ eu sou a kaju.

e vivo bem (d)a minha arte. ”

 

Esta tem sido a minha resposta e deixo aberta para interpretações ou discussões. E ai sigo para o caminho que a pessoa se interessar ou se identificar. E dali vou desenrolando, em uma conversa e apresentação mútua, sobre todas as frentes, sobre todos os caminhos de passado, presente e futuro; visão e ação. Filosófico? Um pouco. Mas é assim que vejo estas apresentações. Já passamos por tantas coisas e temos ainda tantas coisas para vivenciar, independente da nossa idade. Na minha visão nossa apresentação não se resume a um rótulo de profissão, estado civil ou cargo. Somos mais. Somos plurais.

 

“ Legal kaju, mas então quem é você? “

 

Meu nome é Kalina Juzwiak, e quando resolvi viver da minha arte – ou viver a minha arte – aquilo que me movimenta, que faz meu coração pulsar, que faz o sangue correr de forma intensa no meu corpo – criei a kaju. Dei um nome para o lado artista, aquela pessoa que acorda todos os dias com sede de criar, com sede de transformar e de deixar uma marca positiva na vida das pessoas. O lado expressivo e emocional. O livre e selvagem. E a Kalina, quem é? A vulnerabilidade, a sensibilidade, a fragilidade, a mulher que busca todos os dias se descobrir e evoluir. Os pés no chão. E a cabeça nas nuvens. Sempre sonhando, mas nunca dormindo.

Você vive duas vidas? Duas pessoas? Não é bem assim. Todos temos esta dualidade dentro de nós, que podemos chamar de emocional e racional, de hemisfério direito ou esquerdo, de intro ou extrovertido,  de reservado ou social. Eu apenas dei nome para ela em certo momento da minha trajetória. A Kalina e a kaju são uma só. São o equilíbrio, são o movimento, são a transformação diária. Sou, o que sou, depois de tudo que vivi e o que almejo viver. Juntas – e sendo uma só – vivo BEM (d)a minha arte.

Vamos um pouco mais a fundo.

Nasci e cresci entre a natureza e o urbano. Santos foi a minha cidade natal, mas logo mudei para São Paulo, onde vivi grande parte da minha vida. A natureza fazia parte do meu crescimento em quase todos os finais de semana. Montanha ou mar, em família e com esportes ao ar livre. Uma família multicultural ajudou para o contato e aprendizado de diferentes línguas e tradições. Meus pais sempre incentivaram a nossa, das minhas irmãs e minha, criatividade e desenvolvimento artístico. Diários de viagem eram desenhados ao invés de escritos. Criar brincadeiras com aquilo que estava disponível, e não com brinquedos prontos. Televisão era apenas permitido aos finais de semana, para que passássemos as nossa horas com outros afazeres como livros e jogos, e desenvolvendo a criatividade para nos entreter com aquilo que estava ao nosso alcance.

Quando muito nova – dizem os meus pais – era uma criança ativa, espontânea, sensível e afetiva. Em dado momento – dizem eles – me fechei, ao me virar para o meu interior. Existem diversos estudos que dizem causar isto às vezes em crianças. Uma discussão ouvida, e uma interpretação errada daquilo que aconteceu no entorno, podem causar mudanças em comportamentos em fases cruciais de desenvolvimento de crianças. Não sei ao certo o que ocorreu ( e talvez nunca saiba, ou não precise saber ). Hoje, conscientemente percebo que uma chama foi de certa forma apagada, e trocada por um ser mais reservado. E então, para que eu me “protegesse” a razão passou a prevalecer. Uma espécie de estado alerta constante – uma armadura.

Acho que todos nós criamos estas em diferentes fases da vida, não é mesmo?

Neste conflito de ser uma pessoa extremamente sensível, mas ser percebida como séria e racional, fizeram com que eu tivesse que encontrar e desenvolver uma válvula de escape para que esta dualidade encontrasse um equilíbrio. O lugar onde podia me expressar sem filtros. Onde podia ser amor. Ser vulnerável. Ser a chama. Encontrei dentro de mim a criatividade. A minha arte.

A vida ia seguindo, e quando chegou a hora de escolher um caminho profissional, comecei na Arquitetura e Urbanismo. Muitas aulas, projetos e trabalhos. De estágios, a empregos ao meu próprio escritório. Caminhos de exploração e conhecimento. De novo errei, cai, levantei, acertei, busquei alternativas, briguei com chefes, liderei equipes e fui a minha própria chefe. Vivia uma constante luta interna de tentar criar algo inovador, mas estar presa em moldes da sociedade – e depois descobri que também de meus próprios moldes. Uma cobrança pessoal que entrava no caminho do descomplicar e do criar. Mas, independente de vontades, obstáculos e medos pessoais, sempre existiu a vontade latente de evoluir, portanto, em tudo que me colocava a fazer, dava o meu melhor. Me tornava a cabeça, a impulsionadora, a incentivadora e a faz tudo de equipes. Desenvolvia, organizava e me dedicava sempre com respeito e disciplina. Ganhei prêmios e menções honrosas, do colégio, à faculdade, a projetos e trabalhos. Mas aquilo parecia não me satisfazer realmente. Ou melhor, não me trazer o sentimento de preenchimento. Não sabia celebrar realmente, tinha vergonha de subir a um palco, de falar em frente a tantos, de falar de mim. Quem sou eu realmente e o que tenho a dizer para estas pessoas?

E no fundo existia sempre aquela pequena Kalina que tinha a vontade de desconstruir o sistema e construir algo único, de poder expressar tudo aquilo que movia e que alimentava. Aquela imensa força de poder ser plural. De não gostar apenas de uma coisa, de saber usar as habilidades positivas e negativas a favor de um propósito. De poder ser um ser multi-disciplinar, vulnerável e acessível por inteiro. Aos poucos, uma ambição, uma energia, uma força que gritava de dentro de moldes – de dentro da minha própria armadura.

Dores de cabeça e barriga, cansaço, mau-humor, fadiga, estresse. E sem poder assumir, sem poder parar, continuava em um ciclo vicioso de trabalho, dedicação e realização. Uma líder natural que não sabia englobar seu carisma e confiança, e projetava autoridade muitas vezes de uma forma negativa e até prejudicial. Uma viagem para o exterior, com uma prima, foi o estopim para o corpo se manifestar com a infelicidade do momento. Em meio a uma visita aos Jardins do castelo de Versailles, tive que sentar no chão, com dores abdominais sem explicação. Não conseguia caminhar com a cabeça erguida. Me debrucei e apoiei na minha prima, até chegar à estação de trem. Aos poucos foi passando. Mas então, outro dia. E outro dia. Dores. Avisos. O corpo pedia. A mente pedia. E eu negava escutar, a verdadeira Kalina – a intuição que todos temos dentro de nós.

O meu corpo – e minha mente – estavam inflamados. Entendi, compreendi e aceitei que era hora de mudar. Que era hora de tirar aquela armadura. De desintoxicar a alma. De re-ascender a chama. De olhar no espelho e aceitar, de abraçar, de assumir a mulher que via na minha frente – e mais do que isso – que sentia correndo nas minhas veias.

Mudei para a Suíça, com um dinheiro que guardei da experiência de ter o meu próprio escritório de arquitetura. Estimei alguns meses longe, mas me deixei aberta para a história de viver de arte e poder explorar outra cultura. Pensava que se sobrevivesse bem de arte em um país mais distante – onde tinha alguns contatos, e inclusive uma irmã – conseguiria voltar para o meu habitat e transbordar esta vontade! E foi isso que aconteceu.

A Suíça foi um passo de extrema importância para o meu crescimento pessoal, para o meu relacionamento com a minha família, para a desconstrução de uma timidez ainda um pouco enrustida, para a saúde e a segurança de viver da arte. Ser autônoma. Ser uma empreendedora criativa. Ser uma criativa disciplinada. No meio do caminho decidi também me graduar em Design Gráfico, que me deu outra visão e abriu outras portas para oportunidades e composições. Uma rotina diária de constante construção, alimentação de uma fonte quase inesgotável de criação e constante evolução. Desde então venho me aventurando em projetos de diferentes tamanhos, âmbitos e impacto, usando a criatividade como ferramenta principal de minhas habilidades. Gosto de dizer que é o meu super poder. E hoje digo que faço arte e design, com uma visão sistêmica. Pessoas e empresas me escolhem para transformar suas visões em realidade e criar projetos e experiências disruptivas.

Aprendi, e continuo aprendendo todos os dias, a me desprender dos meus próprios moldes, a cultivar os meus potinhos, as minhas sementes, os meus relacionamentos, minhas vontades, características e criações. O que é meu? O que me impus? O que foi imposto por outros? O que quero alcançar? Quais os meus sonhos? O que está em meu alcance para fazer eles acontecerem? Perguntas que até hoje se tornaram um exercício diário.

” Se permita, seja curiosa, cuide de você, se rodeie de pessoas que acrescentam, que te ensinam, que somam. Siga o seu instinto, escolha as suas batalhas, e ao escolher, vença elas com determinação, foco, produtividade, leveza e humildade. E depois celebre! ”

Hoje sei que é o equilíbrio entre todas as partes envolvidas em um sistema, que torna ele harmônico. Valorizo a minha própria companhia mais do que a de qualquer outro. E ah! o silêncio. Aquele que só é interrompido pelo respirar, pelos pássaros, pelo acontecer orgânico de um ambiente em movimento natural. Posso sentar ali, sozinha, por horas, e apenas observar e sentir. A paz de estar comigo mesma. A Kalina e a kaju são sim uma só, vivendo em equilíbrio. E evoluindo a cada dia.

E VOCÊ, QUEM É?

 

Realmente…

0.Comments

    Leave a Comment