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O que aprendi ao fotografar pessoas…

Em alguns países, como nos Estados Unidos, França ou Reino Unido, não é permitido adicionar uma foto em seu currículo devido a possíveis preconceitos de recrutamento. No entanto, na Suíça, incluir uma foto em seu currículo é esperado e necessário. Sim, você será julgado não apenas pelas suas qualificações, mas também pela sua aparência e pela qualidade da foto escolhida. Para ter uma vantagem, os candidatos querem ter a certeza de mostrar seu melhor lado ao enviar seus documentos para uma vaga aberta no mercado e, portanto, estão também dispostos a pagar o preço necessário para tirar uma foto profissional (selfies não devem ser consideradas).

Paralelo aos meus estudos, trabalhei por um ano como fotógrafa de fotos para currículos. 2-3 dias por semana, 6 horas por dia, em um estúdio onde os clientes chegavam em intervalos de 30 minutos (às vezes ficavam até uma hora, às vezes um pouco menos, dependendo do serviço que haviam escolhido). Fotografar diferentes indivíduos todos os dias consome muita da sua energia. A cada nova pessoa que entra no estúdio, você começa um novo bate-papo, para entender as necessidades do cliente e sua personalidade em apenas poucos minutos para maximizar o tempo da sessão. Devido à falta de tempo entre um cliente e outro (para tirar o máximo proveito do dia), há uma certa pressão, que precisa ser bem gerenciada pelo fotógrafo. Porém essa pressão não pode ser demonstrada ao cliente, a calma e a simpatia devem prevalecer.

Insight Nr.1: Pessoas são diferentes e também devem ser tratadas como tal. Não existe um comportamento padrão aplicável a todos indivíduos. Isso pode parecer óbvio, mas os humanos têm a tendência de criar estereótipos e categorizam as pessoas, colocando-as em caixas. Como fotógrafo(a), você tem a oportunidade de experimentar a singularidade de cada pessoa que entra no estúdio. Você percebe que estereótipos ou generalizações apenas limitam suas atitudes e crenças. Diferentes necessidades, diferentes exigências, diferentes auto-julgamentos, diferentes estilos de comunicação, loira, morena, alta, baixa, mulheres, homens, desde nerds da informática até CEOs. Nesses 30 minutos, são todos um pouco vulneráveis e buscam o mesmo resultado: uma imagem que os mostre da melhor maneira possível para ajudá-los a ganhar a próxima ‘perfeita’ posição.

Insight Nr.2: Somos todos humanos. Não importa se estamos falando de uma pessoa famosa, um profissional de IT, um CEO ou um aluno, todos nós temos nossos pontos fracos e nossas inseguranças. Um dia entrou uma mulher em torno dos 40 anos, que havia reservado uma sessão fotográfica de uma hora (o serviço mais caro e duradouro que oferecíamos). Ela chegou de salto alto, bem vestida, maquiada e me comprimentou com um firme aperto de mão. Durante o bate-papo inicial, ela foi bem curta e agiu com uma certa superioridade. Foi difícil quebrar o gelo, mas eu insisti. Afinal, eu sabia que iríamos passar a próxima hora tentando tirar a foto perfeita para sua próxima posição como gerente sênior em um banco renomado. (O que também me leva para o Insight Nr. 3: para tirar uma foto ideal, a pessoa tem que se sentir confortável com o fotógrafo(a) e no ambiente em que está – o estúdio. Boas energias e comunicação são a chave de ouro para tirar fotos impecáveis). Comecei a fazer perguntas para entender melhor seu passado, seu estilo de vida e o ambiente em que ela trabalhava. No início, ela estava um pouco cética, não querendo compartilhar muito. Ao longo da sessão fotográfica, eu tentei conectar fatores do estilo de vida dela com o meu, compartilhando algumas das minhas próprias histórias e experiências em assuntos que eu poderia achar semelhanças. Depois de algumas tentativas, ela começou a se abrir completamente. Passou a deixar transparecer as suas inseguranças, percebeu que estava em um ambiente seguro, que podia ser ela mesma e que não havia problema em baixar o escudo de defesa. Ela podia falar e agir livremente naquele ambiente. Mais para o final da sessão, ela estava pedindo dicas sobre sua roupa, sobre sua maquiagem, posturas, aceitando elogios, rindo da situação e muito satisfeita com o resultado das fotos. Tivemos inúmeras conversas sobre assuntos profissionais e pessoais, e acabamos conversando 20 minutos a mais depois de termos finalizado a sessão fotográfica. Nós temos a tendência a julgar pela aparência, pelo o que vemos na primeira impressão, mas há sempre muito atrás daquela imagem que não estamos cientes. Toda pessoa vem com um pacote de experiências e valores; não cabe a nós julgar.

Insight Nr.4: a maioria (eu diria que 95%) das pessoas têm um (o que eu chamo de) ‘lado chocolate’, os outros 5% têm características mais simétricas e têm um ‘lado chocolate duplo’ (independente do lado que a pessoa estiver em pé não terá um impacto no resultado da imagem. Para entender melhor a importância do lado chocolate, preciso compartilhar algumas informações básicas sobre fotos para currículo: é aconselhável que o/a modelo (em outras palavras a pessoa que está sendo fotografada) esteja ligeiramente virado para o lado, com um pé na frente, colocando o peso sobre este pé dianteiro e estar moderadamente inclinado para frente. Isso garante uma imagem mais dinâmica, interessante e profissional, ideal para currículos). No início da sessão fotográfica, como uma primeira tentativa para quebrar o gelo, costumava perguntar ao cliente se ele sabia qual era o seu ‘lado chocolate’. A maioria das pessoas ficam um pouco confusas, quando explico o que quero dizer, elas apenas riem e dizem que não sabem. Garanto a eles que encontraremos o ângulo perfeito no decorrer da sessão (o que para a grande maioria sempre deu certo). Em comparação, os que dizem antecipadamente saber qual é o melhor lado (principalmente mulheres jovens que têm experiência com selfies), ficam surpresos ao descobrir que normalmente o lado oposto é o verdadeiro. Eu costumava separar a sessão fotográfica em diferentes rodadas, para primeiro descobrir qual era o melhor lado e ângulo da pessoa e depois poder tirar vantagem desse conhecimento e criar as melhores fotos. Quanto mais tempo tínhamos, melhor as fotos saíam. As primeiras fotos geralmente eram as piores, eram testes. Todos precisam de um pouco de tempo para “se aquecer” e se sentirem confortáveis em frente a câmera. Uma vez cumprida essa parte, os indivíduos traziam os belos sorrisos e a espontaneidade, escondidos em cada um de nós. O que me leva ao próximo insight…

Insight Nr.5: Todo mundo é bonito. Pode parecer um pouco falso ou até clichê, mas é verdade. Todos indivíduos são bonitos à sua própria maneira. Esta afirmação está fortemente relacionada ao insight nr. 1, alegando a singularidade de cada indivíduo. Ao passar 6 horas por dia vendo todos os mais variados tipos de pessoas, você começa a ver beleza em todos. Cada pessoa tem seu próprio charme, mesmo que às vezes seja difícil de entender ou ver à primeira vista. Beleza é uma palavra frequentemente usada para aparências físicas, mas o termo vai muito além de corpos e rostos. Em cada pessoa há algo para admirar, algo para procurar, algo para aprender. Eu só posso recomendar ter contato com pessoas que a princípio não parecem ter nada em comum. Acabamos nos escondendo em nossas bolhas conhecidas e nos limitamos ao que sabemos e sempre soubemos. Exploda sua bolha, vá até lá, troque ideias e encontre pessoas que você normalmente não encontraria.

Insight Nr.6: As mulheres com a aparência física mais socialmente idealizada são as mais críticas com a sua própria aparência. Eu vivenciei isso muitas vezes. O cliente chegou e eu pensei para mim mesma “uau, que mulher maravilhosa” (sim, eu também sou um ser humano e às vezes limito meu julgamento a aparência física). O meu primeiro pensamento era que, tirar fotos de uma pessoa simétrica seria super fácil (diz-se que as pessoas simétricas são as mais belas da sociedade). Mal sabia eu que elas eram as mais difíceis de fotografar. A experiência mais forte que vivenciei em relação a isso foi quando uma mulher, de aproximadamente 30 anos de idade, maravilhosa, entrou no estúdio (mal sabia eu que seria a mais difícil de todas). Tentei todas as minhas estratégias de ‘quebrar o gelo’, fiz muitos elogios e fiquei orgulhosa de mostrá-la as fotos que (eu achei) estavam incríveis. No entanto, quanto mais fotos ela via, mais negativa ficava. Ela estava completamente insatisfeita com os resultados. Eu não conseguia entender o motivo. Durante o ano de trabalho no estúdio, comecei a perceber o padrão e a correlação entre a aparência física e o auto-julgamento das mulheres (especialmente). Realmente acredito que este é um problema da sociedade e da propaganda. Olhe para artistas famosas, modelos ou outras figuras femininas representando nosso sexo, elas são constantemente criticadas em revistas de fofocas sobre suas aparições, aqueles quilos extras, o cabelo, o estilo, etc. Talvez quanto mais próximo destes ideais de beleza, maior a pressão para alcançar a chamada “perfeição”? Por que todos nós não podemos ser bonitos, do nosso jeito? Por que não podemos abraçar nossas singularidades e sermos únicos?

Você já fotografou pessoas? Quais foram suas experiências ou insights? Você já percebeu / reconheceu algum desses insights na sua área de trabalho?

 

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