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EMPREENDEDORISMO FEMININO: QUAIS AS MAIORES DIFICULDADES QUE JA ENFRENTEI?

 

Empreender por si só já é um desafio. E não dos pequenos. Para quem vê de fora é uma vida livre. E ela é sim, não vou negar, mas também pode aprisionar. Em horas de trabalho. Em um ciclo vicioso de querer atender a todos os clientes, o tempo todo. De não parar para respirar. Afinal todo seu esforço tem um reflexo direto nos seus resultados. E de outros, quando conectados a você. O mercado vira e se transforma em uma velocidade surreal. Às vezes um passo mal calculado pode ter um efeito irreparável no final do mês. É uma verdadeira montanha russa. Não é a mente, coração e espírito de todos que aguenta. Altos e baixos. Erros e acertos. O cair e levantar. Foco e determinação. Disciplina e produtividade. Ter inseguranças, mas mesmo assim olhar no espelho pela manhã e dizer: “você consegue”. Ficar doente, e mesmo assim aparecer para trabalhar. Todo dia é dia. Como um grande sistema, cada peça que se movimenta tem um impacto e reflexo nas outras que estão conectadas. Sim, empresas também funcionam assim. Também tem suas dificuldades. Também fazem parte de sistemas complexos. Sim, sou bem ciente da complexidade de tudo, mas de certa forma sinto que existe um respiro, existe espaço, existem estruturas. A queda livre da montanha russa é um pouco menor. Pelo menos na maior parte dos casos. Sim, sei que existem exceções e que todos os ambientes tem os seus desafios, mas hoje posso falar apenas com autoridade dos meus – como empreendedorA. Sim com A maiúsculo.

De ser independente
De ser criativa
Ser artista
MULHER
Com cara de novinha
Que caminha por aí sozinha…

Em cafés, restaurantes, reuniões – tête-à-tête – ou em salas com executivos. Conversar de igual para igual com mulheres e homens de todas as idades. De todos os meios. De todas as disciplinas. De todos os cargos. Com amigos e família. Se posicionar com determinação, mas também ser flexível. Ser enfática e simpática ao mesmo tempo. Ser forte e sensível.

E ai aquela pergunta de sempre: Você já sofreu preconceito por ser mulher neste meio?

Com certeza.

Apesar de o número de empreendedoras e executivas crescer a cada dia, e as mulheres terem permissão para trabalhar há muitas décadas, este ainda é um ecossistema principalmente masculino – e machista. E posso afirmar que sim, o comportamento diário do mercado ainda é ultrapassado. Quantas vezes não entrei em espaços ou salas, onde todos os olhos se viram para mim. Alguns interessados na aparência, outros curiosos do tipo: “ o que essa menina está fazendo aqui? Deve estar perdida “. Não isto não é uma suposição, já ouvi deles mesmos depois de me conhecerem, o que julgaram em um primeiro olhar. Outros nem sequer se dão o trabalho de olhar – ou até mesmo comprimentar – a não ser que alguém apresente. Já fui chamada para reuniões apenas pela minha aparência. Apenas por ser mulher. Interesses que iam além do trabalho. Já fui rejeitada para trabalhos por ser mulher – “ela não vai dar conta”. Sim, também já fui a primeira escolha. Com seus lados positivos, mas negativos também – do tipo vitrine – “coloca ela no projeto, porque é bonitinha e vai chamar atenção.” ou “ para as pessoas verem que também colocamos mulheres nos projetos.” Não isto também não é uma suposição. Já aconteceu e ainda escutei isso do próprio contratante.

Assédios morais são quase diários. Assédios físicos – eu nunca vivenciei nenhum grave – e sou grata por isso, mas conheço sim mulheres que já passaram por isso, mais de uma vez. Não posso relatar por elas, mas que eles existem, existem – e com muita frequência. O que é extremamente desconfortante.

Já aceitei muitos trabalhos em cenários assim. Mas também já rejeitei muitos, exatamente por isso. Já enfrentei. Discuti. Me posicionei. Rebati. Tentei provar o contrário. Mas o que mais fiz foi tentar “esconder a minha aparência”. Por muito tempo vivi uma batalha comigo mesma para provar para o mercado que vou além de um rosto bonito. Estudei, construí, discutí para mostrar que podia ser valorizada pelo meu cérebro e não pelo meu corpo. Vesti roupas que me cobriam. Cruzei os braços. Caminhei de forma discreta para não ser tão percebida. Fui séria e enfática – grossa muitas vezes.  Não vou sorrir, se não não serei levada à sério. Uma constante briga por território. Fui aceita. Ganhei espaço, até que um dia percebi que essa briga também era comigo mesma. Que estava me corroendo. Que estava negando quem eu realmente era por um ambiente machista. Que tinha medo da minha aparência. Que tinha medo que o assédio fosse para algo além de olhares, palavras, mensagens e xavecos baratos. E com isso também me fechei para elogios. Não queria ser chamada de linda – e sim de profissional. Não queria que dissessem que meu sorriso era bonito – e sim queria que reconhecessem minha inteligência. Não queria que me olhassem. Passei a vestir uma máscara. Um sistema de proteção constante. Nestes movimentos próprios muitas vezes ouvi: “ nossa como você é séria”, “como você é calculista”, “é tímida, ou apenas observadora?”, e tantos outros. Em primeiros sinais de um interesse além do meu cérebro, me fechava, me isolava, era seca e não respondia. E isto começou a se refletir também na vida pessoal. Afastei pessoas interessantes. Possibilidades e oportunidades.

Me percebi neste movimento. Mudei o meu comportamento – e até personalidade – por conta deste ambiente. A custo do que? Ou de quem? Os comentários continuavam, os olhares também, o preconceito também. E eu? Neguei a minha verdadeira essência. Neguei o meu visual. Estava me escondendo. Com medo.

O que mudou?

Entendi que não preciso brigar pelo território. Que sou quem sou. Que não preciso  – e não devo – ter vergonha disso. Que na verdade posso usar isso a meu favor. “Uh, vou gamificar isso!” – foi a minha conclusão um dia. Em voz alta mesmo, saltitando como uma criança na sala da minha casa. ( Sim, tenho uma criança interior saltitante. E que tranquei por muito tempo.) A mesma adrenalina diária do empreender, também tomou conta do meu ser. Os homens usam seus poderes por serem homens. Por que não podemos usar os nossos, como mulheres?

O preconceito, discriminação, dificuldade por ser mulher neste ambiente, existe sim, mas aprendi a não culpar os homens por isso, ou melhor a não culpar qualquer pessoa por isso – eles ou a mim mesma – e sim enxergar as coisas de outra perspectiva e criar uma nova realidade – pelo menos para mim mesma.

Sim, sou mulher.

Independente
Criativa
Artista

Com cara de novinha
Que caminha por aí sozinha…

Uso meu sorriso para abrir portas.
Uso o meu charme para quebrar o gelo.
Meu sarcasmo para arrancar risadas.
Uso a elegância para me movimentar em ambientes e situações.
Minha força para me posicionar.
Uso minha paciência para observar, escutar, antes de dizer qualquer coisa.
Minha inteligência para discutir, negociar e influenciar situações a meu favor.
Uso a minha sensibilidade para sentir as situações e me colocar da melhor forma dentro daquele cenário.
Palavras duras e carinhosas ao mesmo tempo.
Um aperto de mão firme, mas um abraço que amacia qualquer coração.
Levanto a cabeça.
Olho no olho – lá dentro mesmo – daqueles que me olham.
Ao me cumprimentar ou ao me ver passar.

Não desvio.
Caminho confiante.
Um caminhar certeiro.

Vou atrás daquilo que quero.
E deixo bem claro o que é isso.

Mesmo se lá no fundo o coração está palpitando mais rápido do que o normal e as pernas estão bambas. Eu gamifico as minhas experiências. Venho estudando os comportamentos.

E sabe o que aprendi com isso?

Que os homens se sentem intimidados.
De nós, mulheres, que sabem o que querem.
E sentem mesmo.
E ai fogem…

Uma nota importante:

Hoje compartilho as dificuldades, mas deixo aqui a nota de que sim, existem os homens incríveis também, que não só valorizam, enxergam além do gênero, mas também respeitam acima de tudo. Claro que sim! Não posso negar, e mais do que isso, é preciso também valorizar e respeitar. Vocês me ajudam a acreditar, a continuar. E a não ter medo de ser empreendedorA – sim com A maiúsculo – dentro de um ambiente que é sim bem masculino ainda.

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