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Sou como uma árvore, mesmo fisicamente é assim que me sinto, sou alta, com cabelos como galhos que se espalham para todos os lados e deixam o sol vazar com suavidade, a cada rajada inclino para um lado e para o outro, às vezes movimentos intensos em dias de tempestade, às vezes um balanço de brisa, mas com raízes que se mantém firmes no chão. Sou assim, a mil por hora, mas também tranquila, cheia de pensamentos que me viram de um lado para o outro.

Desde criança assim que posso jogo os sapatos longe, ter os pés em contato com a terra é para mim um dos maiores prazeres da vida. É minha maneira de me sentir parte deste todo gigantesco onde vivemos, de estar conectada, sentir onde piso e as nuances que encontro a cada passo. Já a cabeça, esta voa, rápida com um foguete, e às vezes se perde indo longe demais.

A ansiedade que existe junto com uma mente inquieta e acelerada como a minha é o meu maior desafio, ela me move, me dá uma força enorme, mas também gera estresse e uma pressa para que as coisas aconteçam aqui e agora.

As palavras saem com facilidade e descobri que escrever é a minha válvula de escape, a maneira de concretizar parte do que permeia a minha mente.

Não tenho como não falar sobre maternidade ao explicar quem sou.  Logo nos primeiros meses de gravidez recebi os primeiros sinais de que muita coisa iria mudar, passei muito mal e colocava tudo para fora. Na época não conseguia entender o porque daquilo, mas hoje vejo que estava colocando para fora tudo o que não me pertencia mais, tudo o que eu tinha que deixar ir, aspectos da minha vida que após o nascimento do meu filho não fariam mais sentido. Emagreci muitos quilos, não tinha vontade de fazer nada, nem forças para nada. Eu trabalhava em um canal de televisão internacional e um dia escutei da minha chefe, uma pessoa extremamente especial, que sou muito grata por ter conhecido, que o bebê que crescia dentro de mim era muito mais importante do que qualquer emprego, a saúde dele era a minha prioridade, pois este seria o ser humano que eu mais amaria na vida.

Eu achava que tinha um papel crucial para que os projetos em que trabalhava dessem certo, que as pessoas não conseguiriam seguir sem a minha contribuição. Tive que abrir mão dessa minha necessidade de estar no controle, acalmar a minha pressa e falta de paciência, e deixar a busca material, que era muito importante para mim, de lado. Os meses que passei de cama foram cruciais para desencadear a mudança interna que vivi. Quando voltei ao trabalho, eu já enxergava as coisas de uma nova maneira.

O processo de aprendizado com a maternidade não parou por ai, tinha tudo programado, organizada como sou. Fiz planilhas de excel com quantidades de cada coisa que o bebê precisaria, tinha um cronograma que deveria ser seguido para tudo estar pronto para a chegada do Martin, e a vida de novo me mostrou que não temos controle de tudo o que acontece conosco. Martin chegou de surpresa, muito antes do esperado, em uma inesquecível sexta-feira véspera de carnaval. Meus planos foram por água abaixo, trocados por uma nova realidade, mas deu tudo certo e eu mergulhei de cabeça na maternidade, para este ser que realmente amo mais que tudo e que por ele deixo os meus medos em segundo plano.

Quando a licença maternidade terminou não conseguia nem pensar em deixar o meu bebê, era algo mais forte do que eu, negociei mais alguns meses, mas eles passaram e eu ainda não me sentia pronta para voltar ao mercado de trabalho, não daquela maneira. Não podia mais me ver em um escritório das 9 às 19. Já tinha entendido que eu era substituível para eles, mas não para o meu filho. Encarei o medo de deixar o prestígio de trabalhar em uma multinacional, o salário garantido, os benefícios, e com o apoio da minha família larguei o trabalho dos meus antigos sonhos e mudei meu estilo de vida para estar com o meu filho e vê-lo se desenvolver, poder amamentar com calma e tranquilidade, um direito que toda mãe deveria ter.

Assim descobri que viver com menos funciona, não preciso de tudo aquilo que achava necessário. Priorizo o que é importante para a nossa família, não saímos mais tanto para jantar fora, mas por outro lado faço questão de comprar alimentos de qualidade para cozinhar em casa, fazemos programas sem custo, como ir ao parque, passear com os cachorros, ir à feira, passamos tempo com a família, tiramos sonecas juntos, coisas que eu não conseguiria encaixar na minha vida se não tivesse o que hoje tenho de mais precioso: tempo para estar com o meu filho.

Estou aprendendo muito, conforme o Martin progride, estou progredindo, me conectando mais com meu lado emocional, me libertando de pré conceitos que me engessavam e não me permitiam encontrar maneiras de viver fora do padrão.

É um processo gradual, no qual sinto que cada vez mais consigo me entregar para o vento e me mexer junto com ele, assim como a árvore que me vejo ser há tanto tempo. Entendi que planos se desfazem, mudam, que podem ser maleáveis, que as coisas muitas vezes não acontecem como planejamos, mas que sempre chegamos exatamente onde deveríamos estar.

Neste processo, quase que de forma natural, voltei a cozinhar e isso tem me retribuído de forma muito positiva. Posso dizer que encontrei, na verdade reencontrei, algo que me faz vibrar. Lembro que com 5 anos de idade já adorava ficar à beira do fogão, tinha paixão por doces e por como prepará-los, ficava olhando a Maria, nossa querida cozinheira, fazer bolos e brigadeiros. Mais tarde, quando já tinha uns 12 anos chegou a Flávia, também cozinheira de mão cheia, e com ela aprendi muito, nos damos muito bem até hoje, passava horas de olho em tudo o que ela preparava. Ela teve muita paciência comigo, me ajudava a preparar biscoitos e trufas para vender na escola. E na adolescência, que a cada semana inventava uma dieta diferente, Flávia com a mesma paciência, fazia tudo o que eu pedia, sempre dando risada. Eu achava que precisava emagrecer e o mais engraçado é que eu só perdi os poucos quilos extras que me incomodavam quando simplesmente esqueci do assunto dieta e passei a me preocupar apenas em ser saudável.

Confesso que continuo com a mesma queda por doces, quando almoço na minha avó não resisto e como logo dois pedaços do melhor pudim do mundo, mas meu café da manhã foi cheio de frutas e cereais integrais,  meu jantar vai ser uma sopa deliciosa e super nutritiva. Se for exceção e a rotina for repleta de alimentos saudáveis, está tudo certo. Este é o meu lema.

Em 2011 morei 1 ano no Canadá junto com o meu marido e minha irmã, Teresa, morávamos os 3 no mesmo apartamento e lá cozinhávamos muito na nossa mini cozinha. Passei a frequentar feiras de produtores locais e fiz um pequeno documentário sobre jardins comunitários que abriu os meus olhos para a importância de termos um contato maior com os nossos alimentos. Ainda em Vancouver, fiz um curso de culinária que me inspirou muito, aprendi básicos da cozinha que não conhecia e tive a oportunidade de estar dentro de uma cozinha industrial.

No dia a dia fui aos poucos passando para a minha irmã o prazer de preparar alimentos saudáveis e saborosos com as nossas próprias mãos. Na época não percebi o que estava fazendo, gostávamos de estar juntas e o momento de preparar o jantar trouxe esta oportunidade para nós, ela aprendeu a se aventurar na cozinha e pude pela primeira vez ensinar alguém sobre algo que é natural para mim. Ela atualmente arrasa na cozinha e é uma das pessoas que mais faz receitas do meu blog, sinto um orgulho enorme, plantei a semente e ela seguiu em frente.

Hoje moro em São Paulo, em um bairro tranquilo, cheio de árvores, onde até macaquinhos passam por aqui de vez em quando. Os meus dias são divididos entre cuidar do Martin e dos nossos dois cachorros, escrever e cozinhar muito. Passo horas pensando em como combinar alimentos para criar novas receitas, como melhorar pratos para que fiquem mais saudáveis, e faço questão de apresentar sabores novos para o Martin com frequência.

Quando compartilho receitas nas redes sociais e recebo feedbacks positivos de que aquilo que criei está alimentando outras famílias, meus olhos brilham de alegria e lá vou eu buscar mais ideias e continuar a espalhar que ter uma alimentação saudável pode ser mais fácil do que imaginamos.

Ah, se um dia vou voltar a trabalhar com televisão? Talvez, mas com certeza de um jeito diferente.

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